quarta-feira, 25 de abril de 2012

“Desespero ambulante”






-A esperança é teu ânimo de salvação

Barco sem rumo nas ondas do mar

Por vezes, fechado ao coração

Gemendo embalos sobre o olhar…

-Que fosses a pedra mais alta da serra

E sentisses o vento que sabe cantar

Quando ouves o frio, ameno, sobre a terra

Sem lábios ou musgo que possas beijar…

-E fitas meu peito, de gritos gigantes

Como se, ali, batalhasses ardor…

Quantas falsidades e traições constantes

Sem carinho ou templo, que me liberte a dor…

-Sim! - Fui a mão que abriu da ilusão

Num vento capaz, auréola da mocidade;

Lágrimas perdidas chegando em vão

 Por resmas de ti, montando idade.

-Vi-te no tempo que me aconteceu;

Nas páginas brancas, enquanto te lia;

Se da voz sobrou, na voz morreu

O momento vivido se te conhecia.

                      ***


“Delicadas da minha voz”






Eis que no mesmo dia acontece

Tornado, na mesma hora que se levanta

Se na madrugada, abre e canta

A noite que entristece



Mesmo assim, marco a caminhada

Fazendo como quem vai para mais longe

Que em meu hábito, envergo e me faz monge

Sem pisar o caminho da fachada



Começo por abrir o entendimento

Para renascer ao compreender das palavras

Que assim convém que sejam detalhadas

Em júbilo, além do esquecimento



Mais que, assim, só uma estaca

A que falta e sou temente

Quando de mim sou toda a gente

Em mim, a voz opaca.

                        ***


sexta-feira, 20 de abril de 2012

“Pesadelo na minha cama”



Lá distante,
Fui velho lobo-do-mar
Tomei meus pés, até ao horizonte de mim
Não pude ver, alcançar ou desejar
Mas, passo a passo, conduzi-me até ao fim

Nas trevas, fui amante de coração
Conversando e caminhando confiante,
Distante do caminho, andei de mão em mão
 Ferindo leis, além, tangente, avante

Nuvem vencida, sonho ardente
Fogo de peito, asa guardada
Marchei de céu, nuvem luzente
Cheguei a mim, noite calada

Fui crescer no campo ao lado
Raiando voz soberana
Fui acordar encharcado
Suor, pesadelo na minha cama.
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“Inda, na garganta”




O meu amor abalou…
- Oh farsa de tanta fadiga!
De tanto sal, o peito gritou
Aos lábios, morrendo quem o diga
Que a língua sabe e água levanta
Clamores estrangulados, inda, na garganta.
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quarta-feira, 2 de novembro de 2011

“Tintas de amor”




 O veleiro atracou na minha enseada
Como um vento que pára sabendo-se chegado
Fiz a certeza, logo sobro do nada

Rio sem destino, sem leito nem brado…

Népia que fosse, saboreando tormentos
Com vozes traçadas, temporais alentos.


Ó mar, das angústias mais iradas

Que já não pensas, só corres em vão

Bates na terra pejos de balanças cansadas

Vertendo horizontes no meu coração…

Se em tela pinto, vozes de amor

No céu encontro tintas de dor.

***

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

“NO HORIZONTE DE MIM”





No horizonte de mim, contemplo lonjuras

Escolhas perdidas, fulgores da mocidade

Qual caminho vencido nas cores maduras

Marcado nos passos do vento com a idade

Quanto de mim, por mim fulgura

Sentindo no peito, o feito dessa loucura



No horizonte de mim, um sol do meio-dia

Numa fome de vida sobre um mastigar sombrio

Língua de vento por fora e por dentro lambia

O néctar, enfim, de um crepúsculo vazio

Aquando a voz se ergue nos ecos do destino

E me encontro criança, nos altos do caminho



No horizonte de mim, bem próximo de ti

Palavras para quê!

Ao chegar distante de todos os chegares

Pelos sons de todas as letras que conheci

Que não dizem corações, seus olhares

Pois que venho de longe, para longe, enfim

Bem perto que seja no horizonte de mim.

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